Atrás de toda tela: O que a morte de um videomaker em Mossoró diz sobre nós e sobre a violência política no Brasil.
- Lucas Comunica

- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias

A vida cotidiana na era digital vai apagando nossos escrúpulos, se a gente deixar. Acho que muita gente percebe isso. Pouca gente fala. É esse o ângulo que proponho olhar aqui.
Ontem à noite, um vereador foi baleado em Mossoró. Junto com ele, o assessor, o que costumeiramente chamamos de videomaker ou social media. Nesse cenário absurdo de violência política no Brasil, policial, e todas as outras que você quiser nomear, ele morreu. E essas violências todas, no fim, retratam uma coisa só: a falência do Estado, virada epidemia, em proteger os próprios cidadãos.
Ele se chamava Diego Morais, tinha 37 anos, e levou um tiro de fuzil 5,56 na cabeça enquanto filmava o vereador Cabo Deyvison, do PL, em frente a uma UPA. Era uma live. Uma noite comum, uma câmera na mão.
Quase todo mundo que trabalha com comunicação política já fez exatamente o que o Diego estava fazendo. Dos maiores estrategistas do país, sejam os da velha escola, que no imaginário popular ganham rios de dinheiro para tocar pouquíssimas campanhas, aos mais novos com suas agências cercadas de gente boa para rodar várias campanhas ao mesmo tempo, ou pelo menos fazer parte delas, todos já pegaram uma câmera e apontaram para o político. Para captar, ou para instruir quem capta. É a tarefa mais cotidiana que existe no nosso ofício. Transformar um momento do político em conteúdo.
Comecei dizendo que perdemos os escrúpulos aos poucos. Minha teoria é a seguinte: o online e o offline se uniram e hoje são quase um só, especialmente para as gerações mais novas, no mínimo da Z para baixo. E o absurdo que pode ser dito à distância, sem nos atingir fisicamente, é o mesmo que vai normalizando o nosso dia a dia físico, aquilo que a vida online deturpa.
"Por trás de toda tela tem um corajoso." O ditado é uma adaptação, pelo menos pela analogia, daquele outro: o do cão que ladra atrás do portão mas não morde quando o portão se abre. Durante anos isso foi preto e branco, 8 ou 80. O online era um lugar, o offline era outro. Não se separa mais. O portão abriu.
E veja, eu não estou propondo que essa nova era construiu um marco de conexão e intimidade que não existia antes. O rádio já fazia isso, quando pessoas ouviam novelas e se apaixonavam por personagens e suas vozes. A TV fez mais tarde, criando poucas figuras de tamanho enorme. Especialmente as chamadas "figuras globais", nome que, no meu chutômetro, deve vir da própria Rede Globo. Xuxa tinha fãs, ganhava cartas. Mulheres choravam e acampavam desde aquela época para acompanhar os shows do Rei Roberto Carlos, sucesso no rádio e, mais tarde, relembrado todo fim de ano na TV. A conexão à distância sempre existiu.
A diferença é a velocidade. A internet e as redes aceleraram tudo de um jeito absurdo, e essa pressa foi transferida para a nossa vida sem a gente nem ver. Antes dava para parar de trabalhar, porque afinal só ligariam para a sua casa numa emergência, isso se você tivesse telefone fixo. Hoje você tem um grupo do trabalho. Um da família. Um da faculdade. Alguns de amigos. E os grupos dentro dos grupos, recortes menores e mais seletivos do grupo maior, que me lembram aqueles conjuntos e subconjuntos da matemática que eu nunca entendi muito bem, mesmo tendo me saído bem em exatas. A vida inteira mudou de endereço para dentro do celular.
E quando importamos a vida toda para a tela, importamos junto as emoções, a intimidade, as escolhas, os gostos. É por isso que, para mim, existe sim diferença entre o online e o offline, mas uma diferença que encolhe a cada dia e que, dependendo do assunto, é quase nenhuma.
Depois de tentar explicar em alguns parágrafos como enxergo a vida, a internet e, claro, a comunicação, talvez fique mais fácil entender por que perdemos os escrúpulos aos poucos.
É aqui que o caso de Mossoró deixa de ser só mais uma notícia ruim.
Porque a violência que matou o Diego é física, real, offline. Mas o trabalho dele era produzir o online. Cabo Deyvison é ex-policial, e no discurso e nas ações combatia, à sua maneira, esse mal de facções criminosas que surgiu no Sudeste e que agora, não tão agora assim, sobe o mapa e invade o Nordeste. Ele gravava vídeos na rua desafiando facção, removendo pichação de organização criminosa, fazendo na câmera o mesmo enfrentamento que fazia no asfalto. A facção não respondeu com um comentário. Respondeu com um fuzil e um carro blindado. Mossoró fechou abril com 48 homicídios, 60% a mais do que no ano anterior.
A tela registrou tudo ao vivo. E é aí que mora o nosso escrúpulo perdido: a morte de um homem de 37 anos vai circular como conteúdo, e boa parte das pessoas vai assistir com a mesma distância anestesiada de quem rola o feed. O online nos ensinou a olhar a morte real como se ela não tivesse corpo. Mas tinha. O corpo era o de Diego.
Eu li isso pela manhã e fiquei impactado. Levantei, trabalhei, e aqui estou, escrevendo sobre o assunto, porque não estou apavorado, estou em choque. Minhas contas são quase todas de Santa Catarina, e as que não são, o trabalho é remoto. A distância que me protege é geográfica. É sorte de mapa.
Daqui a sete dias acontece o COMPOL Brasil, em Florianópolis, o maior congresso de comunicação política da América Latina. Daqui a sete dias eu subo naquele palco para palestrar. Um sonho que vou realizar. Eu queria que este texto fosse sobre isso. Sobre como é uma realização para mim, sobre as pessoas ao meu redor, sobre os colegas de profissão que foram fundamentais para me colocar no time de palestrantes.
Mas não dá. Li essa notícia e fiquei engasgado. Porque o Brasil é o país do futebol, o país da Copa, o país por quem eu torço para ganhar uma Copa por pior que seja o nosso time. E é também o país da violência. O país das facções. O país da violência política. O país da violência de gênero. O país da violência racial. O país da violência, sem complemento.
A tela mudou tudo. O país, muito pouco. E foi o país, não a tela, que matou quem só estava segurando a câmera.
Meu pesar ao Diego Morais e sua família. Que o vereador Cabo Deyvison se recupere prontamente.
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