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Moral de Guerra

Atualizado: há 2 dias

Notas sobre como o tempo de guerra recoloca a velha pergunta de Königsberg.


General norte-americano em uniforme militar, sentado em um jipe durante a Segunda Guerra Mundial, em imagem histórica em preto e branco.
General Eisenhower, ex-presidente dos Estados Unidos.

Lembro-me de quando, em 2015, num daqueles primeiros debates do calendário informal, Donald Trump anunciou ao seu próprio eleitorado, com aquela honestidade quase galhofeira que viria a ser sua marca, algo como: "Eu sei que o sistema é corrupto, sei porque eu sou o sistema, comprei político, doei para campanha democrata e para campanha republicana, eu mesmo fiz tudo isso". Naquela mesa, em Cleveland, ou em qualquer outra cidade que sirva de pano de fundo a esses ringues televisivos, o herdeiro dinástico Jeb Bush observava, num desconforto que só os mais antigos conseguem disfarçar, o que talvez tenha sido o atestado público mais sincero de óbito da moral kantiana aplicada à política ocidental contemporânea, declarado não por um autêntico outsider, que paradoxalmente viria a ser o primeiro destes, mas por um sujeito que entendeu, com o instinto que só os homens muito atentos à realidade das coisas guardam, que a era de fazer política conforme a máxima universal estava encerrada, ou, ao menos, suspensa por tempo indeterminado, em razão de um estado de coisas que excedia, em larga medida, a previsibilidade dos manuais.


Pois bem, a moral kantiana, a que aprendemos a celebrar como o ápice da civilidade moderna, é a moral da paz social: faça aquilo que poderia ser máxima universal, faça porque é correto, não porque te beneficia, não porque será reconhecido, não porque agradará a ninguém em particular, eis a saída do homem de sua menoridade, a autonomia da vontade racional, o ser humano como fim em si mesmo, a recusa do uso do outro como meio e por aí seguem todas aquelas belas formulações que constituem o vocabulário oficial de nossa civilização desde a segunda metade do Séc. XVIII. Acontece que essa moral, de beleza arquitetônica admirável, depende de uma condição que costuma passar despercebida nos compêndios: a paz. Quando a paz se rompe, ou quando a sociedade passa a perceber-se em estado de guerra, mesmo que cultural, mesmo que simbólica, mesmo que ainda sem tanques na avenida, a moral se desloca. Não desaparece, não é abolida, nem refutada, simplesmente desloca-se, passa a operar uma outra lógica, mais antiga, mais primitiva, mais funcional para a sobrevivência: a moral consequencialista do resultado, a moral da garantia da existência do grupo, a moral que pergunta "o que isso produz?" antes de perguntar "isso é correto?".


Os soldados de Eisenhower, ao avançarem em direção a Berlim, não estavam preocupados em saber se seu comandante traía a esposa, se sacaneava amigos, se emprestava dinheiro e não pagava, se tinha boas intenções universais nas suas máximas práticas; estavam preocupados, com excelente razão, em saber se ele queria destruir o inimigo e em saber se ele lhes garantiria a volta para casa, os de Zhukov também. A moral kantiana, naquele momento, dormia. Acordaria depois, em Nuremberg, com aquele luxo posterior que só os vencedores podem se permitir; durante a guerra, dormia o sono dos justos, esperando que a história lhe restituísse o protagonismo, quando as condições materiais voltassem a comportá-la. Ninguém, nesse estado mental, está à procura de santos, não é esse o contrato psicológico, é sim de lealdade a causa da guerra, pertencimento, nem tanto de eficiência, mas também, já que Jair Messias foi o único a derrotar eleitoralmente um petista desde que esses entraram no poder pela primeira vez, feito que nem Serra, intelectual, Aécio, prometido, e Alckmin, gestor, todos políticos de calibre, governando à época grandes estados, conseguiram produzir. A única coisa que Flávio Bolsonaro não pode fazer é sentar-se com Lula para tomar um chá, o resto é contingência.


É exatamente essa fenomenologia que me parece estar operando agora no caso recente da conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ao menos no que tange à reação do eleitorado de Jair Bolsonaro, que é o que aqui me interessa analisar, porque a reação dos outros já está dada pelos próprios manuais. Pois bem, sobre o áudio: Flávio teria de levantar sessenta milhões, contratualmente, para o filme do pai, peça cinematográfica destinada a apresentar ao povo brasileiro a saga de um Mártir injustiçado pelos seus terríveis algozes, o conchavismo entre Lula, Supremo Tribunal Federal, Globo e todos os outros antagonistas que a hagiografia recente da família houve por bem catalogar, e que esse aporte deveria vir do Vorcaro, banqueiro do Banco Master, sem que se devesse, naturalmente, suspeitar de qualquer conexão entre o aporte e qualquer eventual benefício futuro que o aportante pudesse vir a ter, em sucedendo-se a hipótese, ainda longínqua, mas, hoje até provável, de o filho do Mártir tornar-se Presidente. Imagine só, que falta de imaginação dos críticos! Por óbvio, Flávio não estava pensando em nada disso, estava apenas a cumprir uma obrigação contratual, talvez também filial, talvez também providencial, mas, em hipótese alguma, estratégica; ninguém acredita nisso, nem os que temos certeza que acreditam.


Outra hipótese cabível, evidentemente, é a de que estava. E aqui é onde a moral de guerra entra em campo, com toda a sua sabedoria deselegante: o eleitorado bolsonarista, esse senhor coletivo que, ao contrário do que pensa nossa intelligentsia, não é ingênuo, sabe perfeitamente que Flávio não é um bom moço, sabe disso há tempos, sabe disso desde muito antes do áudio, sabe disso talvez desde que desvelou-se o drama de Sérgio Moro no Ministério da Justiça, e ainda assim sustenta-o eleitoralmente, porque, sob a moral de guerra, a pergunta deixou de ser "esse homem é um bom moço?" e tornou-se "esse homem está do meu lado nesta guerra que considero existencial?". E, sob essa pergunta, o áudio é apenas mais um fato, contingencial, sem força para deslocar a estrutura. Migrarão alguns, é verdade, talvez para Renan Santos, talvez para Zema, ou Caiado, mas serão poucos, e migrarão por razões que à eles soam muito lógicas, a maioria há de permanecer, sob a lógica de que, no estado de guerra, abandonar um aliado por motivos de conduta pessoal é luxo que só os neutros podem se permitir, e esse eleitorado, por definição, não é neutro.


A questão simétrica vale, claro, para o lado oposto. Os defensores do Lula, se perguntados em particular, longe das câmeras, dirão que sabem que Lula recebeu Vorcaro no gabinete, com dois ministros presentes, os quais o Presidente convocara, em sessão que dificilmente passaria pelo teste da máxima universal; dirão que sabem disso e dirão que ainda assim defendem o Presidente, porque, sob a moral de guerra, o que importa é manter o flanco coeso contra o adversário existencial. Não há Presidente da República que resista a um picareta, é fato histórico, desde Eduardo Cunha com Dilma, antes Roberto Jefferson e o mensalão, antes Pedro Collor e PC Farias, antes os escândalos do próprio Collor com a equipe econômica, e por aí vai a extensa galeria, sempre renovada, dos picaretas oficiais, dos quais Vorcaro é a caricatura máxima, o melhor de seus representantes, o mais recente presente que nos entregou a Nova República, o único que conseguiu transitar publicamente, deixar cartões de crédito e registro de mensagens, com praticamente todos os principais agentes políticos de sua época, alguns deles do outro lado da praça - uma anomalia de nosso tempo -, alguns deles que declaram-se reciprocamente em guerra, vai entender. E ainda assim, nenhum dos lados há de abandonar o seu, quando abandonaram Color e permitiram fritar Dirceu, a cena era outra.


Curioso, aliás, observar a velocidade com que Romeu Zema gravou o vídeo em que afirmava não perdoar Flávio Bolsonaro pelo áudio, não tendo dado vinte minutos desde a divulgação da notícia, faltando, ao gesto, todo aquele decoro mínimo de processar a informação antes de pronunciar-se, decoro que, em outras eras, era condição do próprio direito de pronunciamento público. Algumas semanas antes, lembro-me, Zema partilhava com Flávio uma camaradagem política que sugeria aliança em construção, talvez algum tipo de acerto para o ciclo eleitoral que se aproxima; vinte minutos depois do áudio, contudo, a aliança virara repúdio, na verdade, renunciou do eleitorado que poderia vir à ter, por aquele que já tinha, os verdadeiros neokantianos, dormem em paz aguardando a resolução do conflito, obviamente serão rejeitados pelos combatentes, não há nenhuma grande virtude em abandonar o flanco porque não simpatizou com o que disse seu general, daí como conhece bastante dos princípios do direito público, dos costumes e das leis, no mais elevado dos espíritos cívicos, decide não sobre a virtuosidade na guerra, sim sobre a virtuosidade de seu comandante, disso entende, pela máxima universal, que deve rebelar-se, ou ao menos, respeitosamente retirar-se; será encarado como todos os outros que empreenderam a mesma tentativa. Num universo moral inabalado, aliás, Zema teria de explicar a si mesmo por que sustentava aliança com Flávio durante a semana e por que a rompeu vinte minutos depois do áudio, como bom mineiro, apostaria na ingenuidade de quem não sabia que Flávio não era um bom moço e que não compartilhava da mesma estima pelos princípios do direito público, pelo jeito bobo que fala, nós, os bobos maiores, acreditaríamos que é essa a natureza do homem que governa o mais tradicional estado do país, vida que segue.


Não digo isso, por óbvio, em endosso à moral de guerra. Tampouco em lamento ingênuo pela perda da moral kantiana, que continua, na minha leitura, a mais sofisticada que a humanidade produziu como horizonte regulativo, mas que tem o defeito conhecido de pressupor condições de paz que não estão sempre disponíveis, e que, atualmente, no Brasil, estão menos disponíveis do que gostaríamos. Digo apenas que, para entender o que está se passando, precisamos reconhecer o registro em que as coisas estão sendo julgadas, sob pena de seguirmos espantando-nos a cada novo episódio que a moral kantiana, vista de Brasília, condenaria, sem entender por que essa condenação não produz, no eleitorado das trincheiras imaginárias, o efeito que produziria em circunstâncias normais. Não é que o povo seja insensível à moral, é que está operando outra moral, mais antiga, mais funcional para o estado em que ele se percebe.


A moral sustentou a Lava Jato. Sustentou as crises do petrolão, do mensalão, dos anões do orçamento, dos escândalos de PC e de toda sua vasta galeria de sucessores, sustentou, no fundo, todo o ciclo de moralização republicana brasileira desde a redemocratização, com aquela exigência de que homens públicos se comportassem conforme máximas universalizáveis. Era uma moral católica, no fundo, secularizada na linguagem dos manuais, mas católica na estrutura do julgamento, exigia confissão, contrição, propósito de emenda, e administrava penitências proporcionais às transgressões. Funcionou enquanto funcionou, deixou de funcionar quando as pessoas começaram a perceber que a aplicação não era universal, que algumas transgressões eram processadas e outras não, que alguns eram absolvidos e outros eram condenados, que algumas instituições eram fiscalizadas e outras eram intocáveis. Quando a aplicação deixa de ser universal, a máxima deixa de ser máxima, torna-se uma mínima circunstância somente necessária aos meus inimigos. E uma vez que vira tática, a moral kantiana deixa de operar como moral e passa a operar como arma e, numa guerra, armas existem em ambos os lados. Há quem lucra.


Daí o estado de guerra. Não digo guerra civil, alerto, porque acho que isso não vai acontecer no Brasil, não combina com a história recente, não combina nem com o zeitgeist e nem com o volksgeist, que tem aquela tendência admirável de resolver as coisas no último minuto, na conversa, no jeitinho que, com toda razão, Sérgio Buarque diagnosticou e que, ao contrário do que se costuma pensar, nem sempre é defeito, geralmente é salvação. Mas guerra cultural, sim, aliás, existencial, e essa já está há tempos em curso, e o áudio do Flávio é apenas um dos muitos eventos que serão processados sob essa lógica, com vantagem para uns e desvantagem para outros, sem que isso destrua nenhum dos lados, porque os lados, sob a moral de guerra, não se destroem por escândalos, só se destroem por derrotas estruturais, essas que no Brasil contemporâneo parecem estar longe, 2026 não me parece Waterloo, talvez seja.


Resta saber, e aqui termino, quando voltaremos à moral de paz, quando voltaremos a perguntar, de novo, o que poderia ser máxima universal, antes de perguntar o que conviria à sobrevivência do grupo. Quando isso voltar e, há de voltar, porque o ciclo de guerra cultural não pode durar para sempre, esgota recursos, esgota nervos, esgota a paciência do povo que, no fundo, prefere a vida em paz à vida em trincheira, então o áudio do Flávio será relido, junto com tantos outros áudios e despachos e gravações e gabinetes, sob a luz da moral antiga. Até lá, contudo, o que está dado é o que está dado: a moral cotidiana suspensa, pois há guerra em vigor, e o eleitorado a operar com a sabedoria de quem sabe que não está em circunstâncias normais e ajusta o critério ao tempo. Não há nada de muito novo nisso, embora as novas circunstâncias, das redes e etc., possam fazer parecer, há apenas a velha sabedoria humana de adaptar a régua ao terreno, à espera de que o terreno volte a comportar a régua antiga. Quem sofre são os 40% que não entraram na paranoia. Escreverei sobre a Guerra Existencial.


Por: LHRC.


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