Enlatando Evangélicos: fé, periferia e a preguiça de compreender
- Lucas Comunica

- há 2 dias
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A caricatura do bloco evangélico e o custo político para a esquerda brasileira

Em 2026, a Sapucaí ofereceu uma imagem perfeita do que a esquerda faz quando decide simplificar o Brasil até ele caber num enredo. A Acadêmicos de Niterói homenageou Lula e, no meio do desfile, decidiu satirizar os adversários colocando em cena uma ala batizada de “conservadores em conserva”.
Ali, a escola empacotou sob o rótulo de “neoconservadorismo” um amálgama que juntava agronegócio, elite urbana caricaturada na figura da perua, defensores da ditadura militar e grupos religiosos evangélicos, como se tudo isso pudesse ser lido pelo mesmo fio e, apesar de trajetórias diferentes, estivesse a serviço do mesmo interesse político.
O ponto, por óbvio, não é tratar carnaval como tribunal moral, mas observar como o símbolo funciona. Quando tudo entra na mesma ala, o recado implícito é que tudo trabalha no mesmo sentido.
Esse amálgama não nasceu do nada. Ele é a versão estética de uma explicação fácil que a bolha progressista vem utilizando há anos, e que virou método de interpretação política. Em 2018, quando o país assistiu à vitória de Jair Bolsonaro e à consolidação de uma nova configuração política à direita, a esquerda encontrou um atalho para explicar uma derrota que ainda doía: “os evangélicos”.
A palavra virou categoria totalizante, como se milhões de brasileiros coubessem numa mesma caixa, com o mesmo comportamento, a mesma motivação e o mesmo lugar social. Foram reduzidos a um personagem pronto, daqueles que já chegam com legenda e função no roteiro, como se pudessem ser materializados na figura execrável de Silas Malafaia.
A partir dali, esse segmento deixou de ser apenas parte do eleitorado e passou a ser tratado como problema político a ser administrado, ora com desprezo, ora com improviso, quase sempre com pouca disposição para entender o que está em jogo. Na bolha progressista, o caminho ficou curto demais: “evangélico” virou explicação e virou culpa, e a política passou a funcionar como caça aos responsáveis, em vez de encarar a realidade concreta e suas camadas de classe, raça e território. E, quando uma categoria vira culpa, ela vira também o lugar confortável onde se deposita tudo o que a análise não quer enfrentar.
Quando se observa quem são os evangélicos brasileiros, a fotografia desmonta a caricatura que a ala coloca em conserva. Ao contrário do imaginário do “esquerdista do Leblon que estuda na PUC-RJ e observa o país por lentes homogêneas”, evangélicos atravessam classe, raça e território. Estão entre brancos ricos da Zona Sul, mas estão também, e sobretudo, entre pretos e pardos das periferias, entre trabalhadores informais, pequenos empreendedores e mulheres que sustentam sozinhas seus lares.
Essa capilaridade revela que o pertencimento religioso no Brasil não é apenas crença individual, é rede comunitária, linguagem e estrutura de apoio onde o Estado é intermitente, quando não é ausente.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam para essa realidade. No Censo Demográfico 2022, 61,1% dos 47,4 milhões de evangélicos se declararam pretos ou pardos, percentual superior ao observado na população brasileira como um todo, que é de 55,6%. Entre aqueles com 10 anos ou mais, 12% se identificam como pretos e 49,1% como pardos, proporção maior do que entre católicos.
O dado desmonta a ideia de alinhamento automático com a elite e evidencia que estamos falando de um segmento atravessado por desigualdade territorial e racial. É um segmento que encontra na religião não apenas conforto espiritual, mas pertencimento, comunidade e proteção social.
Mais recentemente, isso aparece também na leitura de Felipe Nunes, em Brasil no Espelho (2025), quando identifica família e fé em Deus como valores estruturantes da sociedade brasileira. A família organiza decisões, prioridades e identidade. A fé atravessa inclusive aqueles que não declaram religião formal, como linguagem cotidiana, num país em que “se Deus quiser” e “graças a Deus” não são apenas figuras de linguagem, mas expressão de um imaginário compartilhado por quase todos.
Somada à baixa confiança interpessoal que marca o Brasil, outro elemento que aparece no livro de Nunes, essa combinação ajuda a entender por que redes comunitárias ganham tanta relevância e por que autoridades morais locais possuem peso político. Ignorar esses elementos é escolher não compreender o país. E compreender mal o país custa caro politicamente.
É nesse terreno que igrejas se consolidam como espaços de acolhimento e reconstrução de trajetórias. Dependentes químicos em recuperação, ex detentos buscando reinserção e mulheres que sustentam seus lares encontram ali pertencimento e comunidade. Não se trata de idealizar a religião, mas de reconhecer que políticas públicas transferem renda, enquanto comunidades oferecem identidade.
Em resumo, um benefício é percebido como direito, enquanto o vínculo cotidiano é percebido como proteção e sentido. São dimensões diferentes da vida social que não se anulam, mas produzem lealdades distintas. Por isso, nenhum governo consegue “substituir” a experiência diária de uma comunidade apenas com programas bem desenhados, mesmo que Lula tenha sido o político mais bem-sucedido da história a se materializar como o “Estado que ajuda o povo”. E é justamente por subestimar essa diferença entre direito e pertencimento que a política insiste em achar que o problema é de “abordagem”, quando, na verdade, é de vínculo.
Quando essa realidade é empacotada como caricatura, o custo não é abstrato, ele vira método de campanha e vira aposta de governo. Por isso, a tentativa de resolver a equação apenas com estratégia eleitoral é insuficiente. Não adianta Lula se aconselhar com Aava Santiago, vereadora evangélica progressista que é fenômeno nas redes e que passou a aconselhar Lula em 2024 sobre como se aproximar de evangélicos. Reuniões periódicas com ela, por melhor estrategista que seja, não rompem laços construídos no cotidiano com a base evangélica ao longo de anos, ainda mais quando parte da própria militância insiste em atacar essa base e tratar sua fé como problema.
É por isso que a ala “conservadores em conserva” não é apenas sátira, é sintoma. Ela junta, no mesmo pacote, o conservadorismo de valores de quem organiza a vida por fé e família e o conservadorismo de posição de quem organiza a vida por privilégio, como se fossem a mesma coisa. Evangélicos pensam por si e fazem escolhas, e reduzir esse universo a massa manipulada é um insulto analítico, além de um erro político.
Quando a esquerda coloca realidades tão diferentes sob um único rótulo, ela não apenas satiriza adversários, ela sinaliza para esse eleitorado que não há ali reconhecimento, e depois se surpreende quando o diálogo não acontece. É como o uso de “fascismo” como ataque a quem pensa diferente: de tanto virar xingamento genérico, o termo se desgasta, perde poder de nomear o que importa e, no fim, já não surte efeito quando deveria surtir.
Outro ponto importante é saber que a elite econômica brasileira, ainda que conservadora, não se organiza a partir da fé popular. Seja a elite urbana das metrópoles, seja a elite do agronegócio exportador, sua base repousa sobre heranças consolidadas, controle histórico da terra, rentismo e acesso privilegiado ao Estado. Não é um conservadorismo de valores, é um conservadorismo de manutenção, feito para garantir que a engrenagem social continue funcionando a favor de quem já está no topo.
E isso tem nome. Trata-se do que Sergio Lazzarini definiu como capitalismo de laços, um arranjo no qual relações pessoais e proximidade com o poder moldam oportunidades e perpetuam privilégios. Nesse ambiente, o conservadorismo é funcional à preservação de posição. Não é devoção religiosa que explica sua postura, mas cálculo de manutenção patrimonial.
Confundir esse ecossistema com a base evangélica periférica é misturar estruturas que operam em planos sociais completamente distintos. É como se o conservadorismo de manutenção de quem vive de herança, terra e acesso ao Estado fosse o mesmo conservadorismo de valores de quem organiza a vida por fé, família e sobrevivência cotidiana nas periferias.
Se a esquerda quiser disputar futuro com consistência, vai precisar abandonar a caricatura confortável e encarar o diagnóstico real. Família e fé não são descartáveis na equação política brasileira, são parte do que dá sentido à vida de milhões de pessoas. E quem insiste em errar o diagnóstico continuará, inevitavelmente, errando na campanha.
Lula venceu a última eleição por pouco mais de 2 milhões de votos, e esse resultado não foi um apoio a Lula, mas uma rejeição a Bolsonaro. Foi o voto útil, o voto do centro, o voto de contenção, dado menos por adesão e mais por rejeição ao adversário. Em 2026, a eleição pode até parecer igual pelo cenário polarizado entre PT e PL, Lula e Bolsonaro (Flávio, eu sei), mas a construção das candidaturas é outra, e o ambiente social que decide margens apertadas também é.








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